O Governo é bom ou mau?
Recordo-me de um jantar em Castelo Branco onde José Sócrates, na altura Secretário-geral do PS disse que “um Governo é bom quando nos aproxima da média europeia; um Governo é mau quando nos afasta da média europeia”.
Dois anos depois do repasto beirão, 21 meses corridos de administração absoluta socialista, a Comissão Europeia e o Eurostat demonstraram que a economia nacional está a divergir cada vez mais do resto da Europa. Portugal, que já ocupou o 14º lugar no ranking europeu, está hoje na 17ª posição e tudo indica que, em 2008, será ultrapassado pela Estónia e por Malta, conseguindo assim uma brilhante 19ª posição na Europa dos 25.
Porém, o Governo ilude-se. Na boa tradição socialista confia na retoma económica para resolver todos os problemas, mas esta tarda em chegar. Ilude-se duplamente, porque pensa que essa retoma será suficiente para resolver os problemas do País. Pura ilusão!
Nos últimos anos, a taxa de crescimento do produto potencial português, i.e. o nível de produto no qual os recursos existentes numa economia estão empregues na sua totalidade, tem vindo a diminuir brutalmente. A Comissão Europeia alerta que o País tem crescido a níveis próximos da “máxima eficiência” e que, em 2007 e 2008, a economia portuguesa estará a crescer acima do seu produto potencial e, ainda assim, conseguindo um crescimento real de, respectivamente, 1,5% e 1,7% do PIB. Pior que crescer pouco é não ter forma de crescer mais!
A outra ilusão é a de que o crescimento económico por si só basta. Nem de perto. Só a Segurança Social, que representa cerca de 11% do PIB, apresentou um crescimento da despesa entre os 5% a 6%, muito acima do ritmo da economia. O Serviço Nacional de Saúde, por exemplo, custa 6% da riqueza nacional produzida num ano e a sua despesa, para além de nunca se saber muito bem quanto é, cresce também a ritmos semelhantes. Enquanto não se reformular o papel do Estado Social não há orçamento que fique duradouramente equilibrado, nem país que consiga invariavelmente viver acima das suas possibilidades.
Mas há uma dimensão política para além da estafada crise económica. O Governo de Sócrates não aceitando outras formas de financiamento das políticas sociais (na linha do que o PSD sugeriu há pouco para a Segurança Social), rapidamente vai perceber que a única solução será a de continuar a cortar e a cortar sem que as contas se equilibrem.
Que ninguém se espante, por isso, que num ano de correcção dos desequilíbrios das contas públicas na maior parte dos países europeus, Portugal, apresente a evolução mais desfavorável. A subida da dívida pública em percentagem do PIB, de 58,6% para 64%, foi a maior entre os 25 países da União e, o agravamento do défice de 3,2% em 2004 para 6% em 2005, conseguiu igualmente o feito de superar todos os outros parceiros europeus.
Porém, para o PS tudo o que sejam formas diferentes de prestação de serviços sociais adquirem o estatuto de instrumentos para a destruição ou "privatização" do "Estado Social". Ao pensar assim, condena o País em nome de um mero fetichismo socialista. Dir-se-á que esta concepção política é natural e inultrapassável. Mas nem sequer isso é verdade. Basta olhar para a Escandinávia ou para a Holanda para perceber como países com governos socialistas adoptaram modelos que Sócrates classificaria de neo-liberais, aniquiladores do Estado Social.
Assim sendo, resta-nos apenas saber quantos mais anos pensa Sócrates manter o crescimento negativo dos salários reais da função pública? Quantos mais impostos pensa lançar? Quantas mais vezes pensa reduzir o valor das reformas? Quantos mais anos pensa parar com o investimento público?
Quanto mais anos de divergência económica?
Quantos mais anos de atraso?
É o próprio Sócrates que responde a Sócrates: “um Governo é bom quando nos aproxima da média europeia; um Governo é mau quando nos afasta da média europeia”. Então, segundo o próprio, o dele não é apenas mau... é péssimo.

